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A implantação de uma empresa de hemoderivados no Brasil está prevista na Lei 10.205, de 21 de março de 2001. A norma regulamenta o parágrafo 4º, do Artigo 199 da Constituição Federal, relativo à coleta, processamento, estocagem, distribuição e aplicação do sangue, seus componentes e derivados.

A lei de criação da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), de nº 10.972, data de 2 de dezembro de 2004. O estatuto dessa estatal vinculada ao Ministério da Saúde consta no Decreto 5.402, de 28 de março de 2005. O sonho de ter uma estatal do sangue brasileiro foi concretizado em setembro de 2005, quando houve a nomeação de sua primeira direção. A empresa, que operava em um pequeno escritório em Brasília, conseguiu, pouco a pouco, se institucionalizar, realizar pesquisas, trabalhos de auditoria em hemocentros e, paralelamente a estas atividades, avançar no projeto de construção daquela que será a maior fábrica de hemoderivados da América Latina, cuja construção deve ser iniciada em 2010 e a operação plena se dará em 2014.

Para entender a representatividade da Hemobrás para o país, é importante resgatar a história da hemoterapia e dos hemoderivados que a futura fábrica, instalada em Goiana-PE, produzirá. A hemoterapia moderna surgiu após a Segunda Guerra Mundial, com a estruturação dos bancos de sangue e o desenvolvimento de um anticoagulante chamado CPD, que permitia que o sangue doado permanecesse em estado líquido, mesmo sem refrigeração. Nos anos 50, foi desenvolvido o primeiro hemoderivado no mundo: a albumina. Três décadas depois, nos anos 80, surgiram os fatores de coagulação VIII e IX. Na década de 90, foi gerada a imunoglobulina, hemoderivado de maior consumo no mundo, e dois outros produtos, o complexo protrombínico e o fator de von Willebrand. Estes produtos salvam milhares de vidas no país, de pessoas com hemofilia, pacientes queimados, com câncer, imunodeficiência primária e AIDS, por exemplo.

O primeiro banco de sangue brasileiro foi inaugurado em 1944, no Instituto Fernandes Figueira (IFF), no Rio de Janeiro, hoje instituto da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para abastecer os bancos de sangue no Brasil a partir da década de 1940, o governo federal, diferentemente dos países europeus que trabalhavam com o altruísmo, adotou o sistema de recrutamento de pessoal por remuneração. Isto criou distorções no sistema, corrigidas após a Constituição Federal de 1988, que determinou a doação de sangue como um ato estritamente voluntário.

A Carta Magna foi o ápice de uma luta travada após 1981, quando foi descoberta a AIDS, doença que tinha na transfusão de sangue uma das formas de contágio. Milhares de pacientes, principalmente as pessoas com hemofilia, foram infectados pelo vírus HIV, o que gerou uma consciência social para proibir a remuneração na doação de sangue e aprimorar sua qualidade.

Com a proibição da comercialização do sangue do povo brasileiro, os bancos de sangue precisaram se reestruturar, seguir instruções normativas, culminando com a criação da Rede Brasileira de Hemocentros, mais conhecida, atualmente, como a hemorrede brasileira. Cada estado brasileiro teve de abrir seu hemocentro. O primeiro deles foi o Hemope, criado em Pernambuco em 1977.

Apresentando perfil diferenciado dos bancos de sangue, os hemocentros exigiam qualidade do sangue coletado, com a realização de testes para a detecção de várias doenças. Hoje, o padrão de qualidade da média dos hemocentros brasileiros se assemelha ao dos países europeus e dos Estados Unidos. E esses hemocentros são os fornecedores do plasma brasileiro enviado ao exterior para voltar ao país na forma de medicamentos (albumina, imunoglobulina, fator VIII e IX). Com a implantação da fábrica da Hemobrás, esse plasma brasileiro não precisará ser enviado para fora do país para se tornar produto. O Brasil terá a autonomia desta produção e poderá fornecer medicamentos de qualidade aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).



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